A Fugacidade dos Desejos e a Força das Ideias

(ensaio reflexivo-filosófico)

O ser humano é movido por um paradoxo íntimo: deseja sem cessar, mas jamais se satisfaz por completo. A cada conquista, um alívio breve; logo depois, uma inquietação retorna — como se algo sempre faltasse. Lacan chamou esse “algo” de objeto a: uma espécie de miragem interna, um brilho que empurra, mas nunca se entrega totalmente. O desejo, nessa perspectiva, é estruturalmente fugidio: desliza, muda de forma, desloca-se para novos objetos.

Mas se o desejo é inevitavelmente instável, como construir uma vida estável?
Se aquilo que buscamos por impulso se desfaz tão rápido, onde encontrar direção?

Este ensaio tenta responder a essa tensão: entre a fugacidade dos desejos e a robustez das ideias elevadas, aquelas que não passam, não evaporam, não se dissolvem na pressa da mente.

1. O desejo: motor, labirinto e miragem

Para Lacan, o desejo não é aquilo que queremos conscientemente.
Não é o carro, o corpo perfeito, o elogio, o dinheiro.

O desejo é a falta que nos constitui.
Uma espécie de vão interno que nos move para fora de nós mesmos.

Por isso:

  • ele nunca se resolve;
  • ele nunca encontra um objeto suficiente;
  • ele sempre promete mais do que entrega.

O desejo é como um vento: sentimos sua força, mas não podemos segurá-lo.

Essa fugacidade cria duas consequências:

1.1. A sensação de que “sempre falta algo”

Mesmo depois de alcançar uma meta concreta, uma inquietação retorna.
Isso não é defeito psicológico: é estrutura.

1.2. A possibilidade de uma vida guiada por impulsos dispersos

Quem tenta viver apenas pelo desejo vive como quem:

  • mira miragens,
  • corre atrás de sombras,
  • acumula conquistas sem encontrar serenidade.

O desejo é um motor, mas um motor sem direção.

2. Ideias elevadas: o eixo que o desejo não consegue ser

Se o desejo é vento, as ideias elevadas são as colunas.

Ideias elevadas não são fantasias.
Não são sonhos vazios.
São princípios que resistem ao tempo, mesmo quando nada externo favorece.

Uma “ideia elevada” pode ser:

  • a busca pela clareza mental;
  • o compromisso com a disciplina;
  • a vontade de cultivar virtudes;
  • o cultivo de sabedoria;
  • o ideal de ser alguém íntegro;
  • o projeto de se tornar útil ao mundo.

Ela não muda conforme o humor do dia.
Não evapora quando o desejo se desloca.
Não depende de elogio, aplauso ou glamour.

Enquanto o desejo exige algo,
as ideias elevadas exigem de você.

Elas pedem esforço, constância e profundidade.
Mas em troca, oferecem sentido — algo que o desejo nunca oferece.

3. Viver apenas pelo desejo é viver à deriva

Um sujeito guiado só pelo desejo:

  • muda de rota o tempo inteiro,
  • perde profundidade,
  • troca o essencial pelo imediato,
  • segue a excitação do momento como se fosse verdade.

A pessoa deseja, alcança, esfria, abandona — e começa de novo.
É como viver consumido por fogos de artifício internos: belos, mas breves.

O resultado: cansaço existencial.

Não é por excesso de esforço.
É por excesso de dispersão.

4. Viver pelas ideias elevadas é viver com eixo

Quando uma pessoa coloca uma ideia elevada no centro da vida, algo muda:

  • o sofrimento ganha propósito,
  • as quedas se tornam degraus,
  • o cotidiano deixa de ser reativo,
  • o foco aumenta,
  • a vida se organiza por dentro.

É como se um fio de coerência surgisse entre ontem, hoje e amanhã.

A ideia elevada faz o que o desejo não faz:
conecta a pessoa consigo mesma.

5. O encontro entre ambos: desejo como combustível, ideia como direção

O objetivo não é matar o desejo.
Isso seria matar a própria vitalidade.

O ponto é colocar cada coisa no seu lugar:

  • o desejo empurra, energiza, movimenta;
  • as ideias elevadas orientam, ordenam, dão sentido.

Sem desejo, falta vida.
Sem ideias elevadas, falta rumo.

O equilíbrio surge quando:

  • o desejo serve a um ideal,
  • não o contrário.

6. Como cultivar ideias elevadas (de forma prática)

6.1. Nomeie um ideal que você quer seguir pelos próximos 10 anos

Não algo emocional, mas estrutural: disciplina, clareza mental, coragem, sabedoria.

6.2. Escreva como esse ideal se manifesta no cotidiano

Concretize:
“Clareza mental” → hábitos de leitura, silêncio, atividade física, honestidade interna.

6.3. Use o desejo como motor para ações alinhadas ao ideal

Quando bater um desejo dispersivo, pergunte:
“Isso serve meu ideal ou me afasta dele?”

6.4. Mantenha um rito diário para reafirmar sua ideia elevada

5 minutos por dia.
Uma frase, uma revisão, um lembrete.
O mundo externo é barulhento; a ideia elevada precisa ser relembrada.

Conclusão: quando as ideias ficam maiores que os desejos

O desejo é humano, necessário e inevitável.
Mas viver apenas pelo desejo é viver sempre começando e nunca completando.

As ideias elevadas são diferentes.
Elas são sólidas, estruturantes, duráveis.
Não prometem prazer imediato, mas oferecem uma vida cuja coerência se sente por dentro.

No fim, a maturidade emocional começa quando o sujeito entende que:

  • os desejos são ondas;
  • as ideias elevadas são o oceano.

E é no oceano, não nas ondas
que uma vida inteira encontra profundidade

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